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Metodologia Walk

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Quando o trabalho Adoece PDF Imprimir E-mail
Por Revista Psicologia: Ciência e Profissão, Ano 4 - nº 5. Dezembro de 2007.   
16 de janeiro de 2008
Falta de autonomia, cobrança de resultados e extremo desgaste físico e mental. Com um mundo tão competitivo, é necessário haver maior intervenção dos psicólogos
A saúde do trabalhador vai mal. E o ambiente profissional é o principal detonador das enfermidades. Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que em todo o mundo 160 milhões de pessoas sofrem de males associados ao trabalho. Pelo menos 2,2 milhões de indivíduos morrem por ano em decorrência de doenças laborais e acidentes provocados pelas más condições de trabalho. Entre as enfermidades estão transtornos mentais (como depressão, ansiedade e síndrome do pânico), distúrbios osteomusculares (caso da Lesão por Esforço Repetitivo, a LER), cardiopatias, dores crônicas e problemas circulatórios. As categorias mais afetadas são as dos bancários, professores, profissionais de telemarketing e do comércio, motoristas de ônibus, controladores de vôos e trabalhadores da saúde.

Na opinião dos especialistas, vários fatores contribuem para esse adoecimento coletivo, tais como péssimas condições de trabalho, falta de segurança e autonomia e exposição freqüente a situações de extremo desgaste físico e mental, provocados pela necessidade de cumprir metas. Esse cenário tem levado o indivíduo a viver uma luta frenética e desigual. Para a psicóloga Maria da Graça Corrêa Jacques, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFR-GS), as transformações introduzidas nos últimos anos nos processos de trabalho, que geram maior competitividade e ansiedade, contribuíram para o sofrimento psíquico de homens e mulheres. Além disso, a pressão por qualificação é transferida individualmente para as pessoas e está associada ao conceito de empregabilidade. "Não causa surpresa que palavras como guerra, sobrevivência, luta e combate sejam freqüentes nos locais de trabalho", afirma a especialista. E acrescenta. "Psicólogos que atuam junto à área de gestão de pessoal e estão envolvidos na implementação de programas de reestruturação produtiva precisam estar atentos às implicações psicológicas derivadas dos chamados modos de gestão de excelência."

De acordo com a psicóloga Ana Cristina Limongi França, da Universidade de São Paulo, estudos sobre a relação entre o ambiente e as tarefas organizacionais e os casos de adoecimento e de perda de sanidade mental - que por vezes até levam à morte - possibilitam um novo olhar sobre as questões da saúde e doença no trabalho. A partir dos anos 90, com as discussões sobre qualidade e competitividade, foi dado um passo importante nessa compreensão. "Ficou evidente que não se podia falar de qualidade e produtividade de produtos e serviços sem reconhecer a necessidade de fornecer qualidade de vida no trabalho. Hoje, além dos esforços para combater a violência e a depressão, há o desafio de buscar condições efetivas do trabalho decente", diz.

Segundo a médica do trabalho Anadergh Barbosa Branco, pesquisadora da Universidade de Brasília, com a evolução tecnológica e a degradação das condições de trabalho nas últimas décadas, o homem passou a assumir várias atividades ao mesmo tempo, o que o obrigou a adotar jornadas dupla ou tripla para não ser superado pela máquina. "As empresas conhecedoras dessas 'fraquezas' optam pelo trabalho por produção, por metas, bancos de horas e alternativas pouco saudáveis", explica. Anadergh é autora de um estudo que revelou que a depressão é a doença que mais afeta os trabalhadores. A pesquisa foi feita com base nos benefícios concedidos pelo INSS entre 2000 e 2004. O resultado mostrou que 48,8% dos que se afastaram por mais de 15 dias apresentaram distúrbios mentais.

O problema, claro, afeta o mundo inteiro. Um recente estudo inglês apontou que é cada vez maior o número de trabalhadores jovens que sofrem de depressão e ansiedade causados pela alta pressão no trabalho. Foram avaliados mil profissionais como policiais, pilotos, professores e médicos - todos com até 32 anos.

Deles, 45% apresentaram problemas mentais. "Essa é uma idade em que os indivíduos estão se firmando em suas carreiras, portanto, as probabilidades de optarem por trabalhos menos estressantes são mínimas. Por isso é preciso fazer mais para proteger a saúde dos trabalhadores", declarou Maria Melchior, epidemiologista do King's College de Londres, e coordenadora do estudo.

Esse cenário poderia ser mais saudável se as empresas fossem além do mero cumprimento das leis. Hoje, no máximo, as corporações se preocupam em seguir a legislação visando, sobretudo, não ter problemas com a fiscalização. "As empresas precisam aprender que não podem ganhar sozinhas. A humanização do trabalho é fator importante tanto na promoção da saúde quanto na prevenção de doenças, particularmente as mentais e comportamentais. Trabalhador saudável e satisfeito produz mais e adoece menos", afirma Anadergh. Ela avalia que as doenças têm, em geral, fatores multicausais e podem sofrer agravamento devido à relação que o indivíduo tem com seu trabalho.

Dados da OIT indicam que os custos relacionados a doenças e acidentes do trabalho atingem 4% do PIB Mundial. Só no Brasil, as cifras relacionadas às licenças médicas, à rotatividade de funcionários, à queda na produtividade e ao absenteísmo no trabalho dos empregados com registro em carteira chegam a R$ 80 bilhões. Ou seja, 3,5% do PIB. E os números da Previdência e Assistência Social revelam que em 2006 cerca de 140 mil trabalhadores ficaram longe de seus empregos por mais de 15 dias consecutivos em função de doença ocupacional e acidentes de trabalho. Um outro levantamento da entidade mostrou que entre 2000 e 2005 só o setor bancário afastou 25 mil funcionários. Cada um ficou, em média, um ano e meio sem trabalhar. Um custo de R$ 981,4 milhões de auxílio-doença. É verdade que esses dados não representam a totalidade do problema no país, pois dizem respeito apenas aos 29 milhões de trabalhadores formais. Os que vivem na informalidade, como motoboys, camelôs e feirantes não são contemplados pelas estatísticas. O que significa que essa realidade pode ser ainda mais cruel.

Faltam serviços especializados para atender a essa demanda. Nos casos mais graves, os servidores estaduais e municipais são encaminhados para os hospitais mantidos pelos governos. Dificilmente os profissionais de saúde dessas instituições reconhecem a relação de certas patologias com o trabalho. Segundo Maria da Graça, da UFRGS, é fundamental levar em conta essa associação. "O psicólogo deve estar sensibilizado e qualificado para o diagnóstico e a identificação dos nexos causais entre a saúde e o trabalho", reforça.

Um dos poucos serviços que prestam atendimento a essa população é mantido pela Prefeitura de São Paulo. O centro de atendimento formadas por médicos, assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais que dão suporte aos que procuram ajuda. Segundo o psicólogo Cássio Figueiredo, coordenador de desenvolvimento do Programa e Política de Saúde da Prefeitura, o atendimento é feito em parceria com o Ministério Público e a delegacia regional do trabalho. "Cuidamos não só dos trabalhadores doentes como também damos atenção aos desempregados. Nos dois grupos os diagnósticos mais freqüentes são transtornos mentais e alcoolismo", relata Figueiredo.

A boa notícia é que essa situação pode melhorar. De acordo com o médico Marcos Antônio Perez, coordenador da área técnica de saúde do trabalhador, uma política criada pelo governo federal — e articulada com os Ministérios da Saúde, do Trabalho e Emprego e da Previdência Social - visa a redução de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho a partir de ações de promoção, reabilitação e vigilância na área da saúde. A idéia é capacitar os profissionais de saúde para garantir um atendimento de qualidade. A principal estratégia é a Rede Nacional de Atenção à Saúde do Trabalhador (Renast), um amplo programa de assistência aos trabalhadores que vai investigar as condições de segurança nos ambientes laborais. Outro braço desse projeto é o serviço sentinela, formado por um conjunto de serviços de alta e média complexidade dentro do sistema SUS.

O objetivo é atender as vítimas de agravos à saúde relacionados ao trabalho, participar da reabilitação e notificar os casos. Esse modelo de política pretende ajudar a identificar as enfermidades, desenvolver pesquisas e armazenar informações em um banco de dados. "Hoje o doente chega ao hospital com uma queixa e recebe remédios sem que se faça nenhuma relação com o trabalho. Isso irá mudar. Estamos capacitando profissionais dos serviços públicos para fazer esse tipo de diagnóstico, mesmo nos trabalhadores informais. Até em caso de uma dermatite será investigado se há relação com o trabalho do paciente", conta Perez. Em todo o país já existem 150 centros especializados em saúde do trabalhador como parte da rede Renast. "Não é apenas mais um serviço para atender doentes. Esses centros estão habilitados para diagnosticar e investigar a origem desses males e, principalmente, dar suporte aos hospitais com informações sobre casos e acidentes”, acrescenta.

Fonte: Revista Psicologia: Ciência e Profissão, Ano 4 - nº 5. Dezembro de 2007.
Última Atualização ( 27 de junho de 2008 )
 
 
   
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